Rótulo

Ao nascer já me rotularam: Macho! Tiraram medidas do meu corpo todo e mais uma porrada de procedimentos para me identificar. Minha avó se encarregou em descobrir qual era o meu signo astral, seguido dos ascendentes, traçou minha personalidade. Genial! Mas erraram em algumas coisas.
Com o tempo fui recebendo outros rótulos: filho, estudante, irmão, namorado, universitário... Dentre tantas coisas que nos confrontam. Adiante, mais rótulos: sócio, homem, adulto. Severa e errônea generalização! Nessa profusão de rótulos, se confundem e me confundem a contabilidade de perdas e ganhos... Talvez não sejamos ninguém.

Dos meus lados

Sobre aquele meu lado que não é azul, cê sabe! Ele se manifesta sempre que é preciso. Sempre que o humor está vencido, na desordem.
Mas tudo bem, você não ama apenas o lado azul. Te interessam as outras cores e variações...
Para esse meu lado que não é azul, somente sorrisos funcionam. Se forem teus, se os teus forem meus; Dormirei e acordarei bem.

Alegoria

Fevereiro é pouco,
é inteiro esse carnaval todo o ano!
Só não esqueça de arrumar a sua alegoria, e aproveita essa alegria...
Porque nem só pela carcaça a avenida é aplaudida;
A confusão começa quando termina a certeza dentro de si...
Tá tudo bem! Nem vais tão além,
é tudo estranho e esse carnaval vai passar, esse escarceu vai passar;
Pós fevereiro, irriga o país...

Gasto

É o frescor... Espirito encetativo, alma itinerante e curiosidade aguçada.
Perigosas possibilidades, vontades nunca em vão.
É o mesmo que mergulhar sem colimar.
É mais que ir. É mirar e ir!
Mais substituições que renuncias, é mais aqui acolá.
Mais recreios, mais amores, - mais deixados -.
Menos versos, menos apego,
E consequências...
Obras “meia-boca”, invariáveis.
Quando percebo, já não tolero o absurdo, decaio arrogante, sem paciência. Com tendência a ignorar e não discutir.
Demora, mas percebemos: Não é desilusão, é falta de sorrisos, esgotados nos caminhos.
Tudo é difícil, mas não posso perder o resto de juventude que ainda existe em mim.

Quanto à vida

A chuva cai,
pensamentos fluem por minha cabeça
Quem somos? A que viemos? O que será?
Dúvidas, assim como a chuva... Misteriosa, mansa, furiosa...
Às vezes inunda, às vezes devasta
Sempre volta
Quanto ao vir, foi necessário,
quanto a mim
“Eu vim, mas trouxe o sol e a tempestade lá de longe”

Chuva cai lá fora,
Melhorei a relação com a dúvida,
mas ainda sigo com um leve incômodo, -o que é humano e compreensível-.
O que somos? Pra que viemos? O que será?
A única certeza
Temos de fazer sempre o nosso melhor para alcançar os objetivos,
mas principalmente ter em consciência:
A vida tem sua dinâmica e essa pode não ser a hora certa.
Seja sempre o que tiver de ser!

O amor que matava

Ela amava ele, mas gostava de ópera, instrumentos musicais e ler literatura americana. Ele amava ela e não gostava de mais nada, odiava tudo o que ela gostava.
Ela não gostava de chorar e ele sentia prazer ao ver aos prantos sua amada.
Ela amava ele, talvez por isso ele odiasse a si próprio!

Grito da alma

A dor não pode virar silêncio;
Os filhos largados
As feridas expostas
O amor inacabado
Vermelho das guerras.
Dos vazios que foram e voltaram contigo,
Arranque do peito essa lamúria surda
Faça-a sentimento e prece
O grito é a arma da alma.

Tiquetaque prometedor

Pulei o muro, acelerei o motor. Entrei em contato com a grama, e logo não havia mais o verde e sim um tiquetaque prometedor. Bruscos sons de buzinas e outros que como eu, procuravam zerar uma lista interminável.
Tentei chegar a tempo para o jantar, mas a volta à velha vida ainda sofria crueis adaptações.
O trânsito era o mesmo, eu era o mesmo... Mas os sinais da cidade foram acentuando o barulho dentro de mim juntamente com a acelerada vontade de romper os duros limites da realidade.
É que na volta, me deparei com o maior motivo que me levou a fugir no dia em que nem forças para lutar tinha.
Ela se casou com um “gelatina” e tiveram gelatininhas, por isso tentei contra-atacar. Mas os que pensam muito antes de dormir nunca conseguem ser maus.

Em frente

Sempre torci para que ser feliz desse certo, mas chegava atrasado ao momento seguinte. Entre perdas e danos, deixei de vivenciar momentos que viraram suposições... Apanhei de mim mesmo em perguntas e respostas... Pois não tenho certeza alguma. Alias, de uma coisa sei: das dificuldades reforcei a minha coragem. Venha acaso, já estou calejado de levar pancadas. Enfrentar a ti será bobagem! To jogando contigo e quero ver logo o resultado dessa partida! Minha vontade me ajuda.

Mil novecentos e oitenta e seis

Era verão de oitenta e seis, janeiro calorento, abafado. Foi quando aportei no mundo, o dia em que me tornei mais um Adão na terra do não!
Desde então, a procura por um sim eterno... Enfrentando a dor de lidar com os meus fascínios por este mundo fascinante.
Eu sei, entrei feito um bicão numa festa iniciada há gerações, nesse turbilhão esperançoso.
Vim me preencher com a minha essência, aquela dada a cada ser. Vim rechear o mundo com um pouco de minha presença, ser único, menos volátil e descuidado.
Vim tornar além, dar alma, ser mais que humano.
Vim deixar arte, ideias. Afinal, li em algum lugar a respeito da morte carnal, mas uma ideia... Ah, Uma ideia é imperecível!
A ideia atravessa grades, muros, paredes, quintais, campos, bairros, municípios, cidades, estados, países, continentes. E inspira e prolifera e renova e inova e faz o novo e faz de novo...
Assim preciso seguir: Criar, compor, arrastar, inflamar!
É lógico, tenho mil intenções em tudo que escrevo, e não se engane, geralmente nunca é uma coincidência. Como condutor, busco definir os caminhos a trilhar.
De todos os meus defeitos, o melhor que possuo é a franqueza. Os vocábulos saem dos meus olhos e fuzilam ou acariciam os que me circundam.
Tudo o que tenho vieram desse meu detalhe. Não poderia ser diferente, porque desde aquele dez de janeiro de oitenta e seis venho observando, flertando, aprendendo, sonhando e sentindo...
O mais admirável na condição humana é a emoção. Atinar sentido e sentimento, viver essa profusão é uma confusão que a coletividade social não suporta aceitar. Vou continuar a escrever o que os meus olhos, a minha boca e minha alma tiverem necessidade de nascer.

Desejos grandes

Torço para não perdermos a fé.
Torço para que ninguém caminhe sozinho, para janelas abertas e acesas na madrugada...
Torço para que saibamos demorar o olhar nas pessoas, e assim, possamos perceber a luz que há por trás disso. Torço para vivermos na velocidade dessa luz até o curto-circuito. 
Torço para não vivermos o óbvio, para que tenhamos muitos desejos - dos grandes - e que fique claro: O amor melhora, cura e anima a gente...
Torço que tenhamos coragem para encarar os nossos já "grandes desejos", e reconhecer, que quem determina a felicidade somos nós.

Confinamento solitário

A rua é muito elegante,
A cena é muito triste
Tenho um mau pressentimento sobre isso.
Vamos, mesmo que pareça estranho pra você, nós temos essa regra de ouro.
Estamos aqui para ver o manifesto e acostumar com ele.
Seres humanos da terra com o coração cheio de necessidades, cheio do nada!
Há uma vida jovem na periferia da cidade
Ela me ama louca e me ama selvagem. Em confinamento solitário.
Só tenho... Quem eu tenho?
Eu não quero te salvar, resgatar ou escravizar-te.
Eu só quero te ouvir, considerar e estar perto de você.
Nenhuma tristeza é muito grande, nenhum outro sentimento é muito pequeno.
É só um confinamento solitário
Sem ninguém para ir à fiança
para salvar minha respiração
em qualquer hora, em tudo.

Sobras

Passam os dias, passam meses, passam anos... E nós sempre envoltos nessa atmosfera que nos inunda e nos abarca na eira faltante: Falta brilho, falta luz, falta verdade e vontades. Faltam arrependimentos e anos mais tarde sobram arrependimentos.

Antes das seis

O Mundo tá duro, você anda duro e ainda não conseguiu comprar o seu apartamento, anda negligenciando felicidade! Vamos parar... Tudo anda e tudo corre: Presencia corruptos, tem um amontoado de contas pra pagar. Erra ao sair, ao chegar... Vai ficar estúpido e inseguro até quando? Tudo isso é temporário. Vai esperar a sua vida ficar plena e plana? Quitar o apartamento que ainda nem comprou? Vai esperar pilotar o carro dos seus sonhos? Usar sapatos de marca, roupas caras e das melhores para aí sim, ser feliz? Conceitos insignificantes são para serem revistos.

Noites

Da janela avisto a imensidão. Estrelas, céu, infinito. Um desejo silencioso... É noite, éramos grandes, éramos entregues, era comum, era um instante... Felicidade é um – simples – instante, é passageira e não dá nem para estranhar, bate na porta, e a gente nem se mexe. TE PEGA! Ela ta nas distrações, é o que sai de ti e que ainda não chegou a mim. É um sorriso honesto que dispensou discurso, é elogio, cortesia, dedicatória... Palavras não ditas.